domingo, 31 de outubro de 2010

E agora, Serra?

A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, Serra ?

e agora, você ? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama protesta, e agora, Serra ?

Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, Serra ?

E agora, Serra ? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no
mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. Serra, e agora ?

Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse… Mas você não morre, você é duro, Serra ! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, Serra ! Serra, pra onde ?

Adaptado de Carlos Drummond de Andrade

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